A curiosa história de um trampolim espacial

Os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley a bordo da cápsula Endeavor, indo em direção à ISS

Quando o diretor da Roscosmos, o camarada Dmitri Rogozin, soube que a NASA estava cogitando outras opções para levar astronautas à International Space Station (ISS) que não envolviam alugar um assento na Soyuz, a cápsula tripulada da agência espacial russa, ele disse que “talvez os EUA irão construir um trampolim pra ir para o espaço”. Bem, eu não sei o que exatamente o camarada Rogozin considera um trampolim, mas certamente ele não estava pensando em um foguete que pousa sozinho, muito menos em uma cápsula espaçosa e tecnológica.

Os ônibus espaciais americanos eram maneiros, mas em 1986 o Challenger explodiu durante o lançamento, e em 2003 o Columbia explodiu durante a reentrada. As tripulações das duas naves morreram.

Oito anos depois do acidente com o Columbia os EUA deixaram de enviar astronautas ao espaço por conta própria. No dia 8 de julho de 2011 a Atlantis foi lançada do pad 39A com quatro astronautas levando partes para a construção da ISS, e retornou dia 21 de julho, encerrando a era dos ônibus espaciais.

Ônibus espacial Atlantis decolando para a última missão tripulada de um ônibus espacial, em 2011.

Atlantis subindo na sua última missão em 2011.

Depois disso, pra enviar gente lá pra ISS a NASA precisava ir de над, ou Uber em russo, e pagar alguns milhões de dólares pra Roscosmos por uma vaguinha na Soyuz. Acontece que essa vaguinha foi ficando cada vez mais cara, claro. É pura lógica de oferta e demanda: tem um gringo querendo subir e um camarada com vaga na cápsula; o camarada vai cobrar o quanto quiser, e se o gringo quiser ir, que pague.

Só que a Rússia não contava com um gênio playboy milionário filantropo coelho falastrão que enfiou na cachola que ia pra Marte e podia muito bem dar umas voltinhas no espaço no processo.

Em 2006 o sr. Elon Musk começou a brincar de rocket science com a SpaceX e o Falcon 1. Ele queria comprar uns foguetes russos, mas os camaradas não quiseram vender; ele voltou puto e resolveu que ia construir um. Depois de algumas falhas e uma quase falência o foguete funcionou, e Musk foi em frente, refinando o bicho. A meta dele era construir e usar um foguete que não precisasse ser jogado fora toda vez que fosse usado, afinal, é como se um avião comercial fosse destruído depois de um único voo. A SpaceX desenhou motores pros foguetes, aperfeiçoou o design dos estágios e fizeram testes, muitos testes. E foram muitas desmontagens rápidas não programadas até conseguir o que o Musk queria.

E conseguiu mesmo, a ponto de agora ser estranho quando o foguete – mais especificamente o Falcon 9, seja ele sozinho ou como parte do Falcon Heavy – NÃO pousa.

OK, foguete funcionando, Musk agora tinha um jeito de oferecer à NASA voos não-tripulados pra ISS pra enviar seja lá o que for que os cientistas da NASA enviam pra lá. A cápsula Dragon fez seu primeiro voo de teste em 2010, e em 2012 fez a primeira acoplagem com a ISS. Ponto para a SpaceX!

De 2012 pra cá foram inúmeras as missões de carga da Dragon, mas era preciso ir além: se a Dragon levava e trazia suprimentos com segurança, ela também seria capaz de levar e trazer humanos, certo?

Claro! A Dragon v2, ou DragonRider, ou ainda Crew Dragon, foi lançada com sucesso no dia 2 de março de 2019, levando para a ISS um único passageiro: um indicador de gravidade zero.

E então chegamos no dia de hoje. Era pra ter sido na quinta-feira, mas São Pedro resolveu dar uma de Capitão Nascimento e não subiu ninguém porque o tempo tava mais feio que bater na mãe. A transmissão ao vivo do canal oficial da SpaceX bateu quase dois milhões de expectadores e o trampolim lançou para a ISS, do pad 39A (sim, aquele mesmo do lançamento da Atlantis), dois astronautas americanos, Robert Behnken e Douglas Hurley, dentro de uma Crew Dragon acoplada a um Falcon 9 que, claro, lançou o segundo estágio no espaço, voltou e pousou na balsa Of course I still love you.

Falcon 9 levando a Crew Dragon para a ISS

Foto bunita, foto formosa! Olha a Dragon ali!

Considerando, então, as falhas dos ônibus espaciais, a recusa dos russos em vender coisas pro Musk, as falhas e acertos dos foguetes da SpaceX, a soberba do camarada diretor da Roscosmos e a vontade dos EUA de retomarem a independência espacial depois de quase vinte anos, podemos concluir, juntando todas as pecinhas, que:

  • os EUA queriam voltar sozinhos pro espaço e conseguiram;
  • a missão foi um baita dum sucesso;
  • a NASA não precisa mais se sujeitar à regra de oferta e demanda corretamente aproveitada pela Roscosmos;
  • a SpaceX fez de novo;
  • o cara que negou os ICBMs pro Musk deve se arrepender amargamente disso até hoje;
  • trampolim americano funciona pra caralho.

Pro despeito não ficar feio, já que todas as agências espaciais relevantes do mundo (eu disse relevantes, a AEB não trabalha de final de semana) parabenizaram a SpaceX e a Nasa pelo sucesso da missão de lançamento, a Roscosmos soltou uma notinha no Twitter:

Pelo nome da pessoa que assinou a nota, imagino que o camarada Rogozin deva estar arrancando as calças pela cabeça. E se eu fosse o Musk ou o Jim Bridenstine, o administrador da NASA, nomearia todas as missões tripuladas para a ISS como Trampolim Espaçoso. Só pelo deboche.

Os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley a bordo da cápsula Endeavor, indo em direção à ISS

Desculpem, não é mais Crew Dragon, agora a cápsula atende por Endeavor.

A Crew Dragon – que agora é Endeavor, rebatizada pelos astronautas – pode levar até sete passageiros e tem um painel touchscreen de dar inveja a todo mundo. Ela é tão espaçosa que no stream da missão – que você vai poder ver clicando na foto acima – os astronautas fizeram um tour por ela, mostrando toda a magnificência dracônica da cápsula. E como levaram um indicador de gravidade na primeira missão de teste, nessa também teve um.

Astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley sentados na Endeavor com o dragão de pelúcia que indica microgravidade flutuando em primeiro plano

Claro que dessa vez ia ser um dragãozinho de pelúcia. Claro.

E é isso aí. Os EUA estão de volta ao jogo de mandar gente pro espaço. E a gente aqui da Terra – pelo menos os que não estamos preocupados em ficar lacrando toda hora no Twitter – fica babando no que a rocket science é capaz de fazer.

Godspeed, Bob and Doug!


Fontes: este livro, o site da SpaceX, e a Wikipedia em inglês (aqui e aqui).