Do ódio à uva passa e outros doces naturais

Rachel Claire/pexels.com

Twitteiros e demais seres humanos diriam que há dois tipos de pessoas: os que socam uva passa em tudo e os que são normais – ou vice-versa, depende do time no qual você está. Eu me considerava do time que abominava inclusive as menções à pequena fruta enrugada, daquelas que nem pode olhar pra um panetone que, além de reclamar que “puta merda já tá chegando o final do ano de novo!”, ainda despreza o negócio como se aquilo fosse uma abominação. Mas vocês sabiam que também tem uva passa em colomba pascal?

Pois então que havia colomba pascal em outubro. Ou o coelhinho da páscoa errou a data, ou tava simplesmente querendo se livrar do prejuízo que teve no ano da graça da pandemia de COVID-19. O fato é que eu fui tomar café e tinha a danada da colomba. Eu lembrava que tinha uva passa lá no meio? Claro que lembrava, mas eu tava com fome. Então foi lá uma passada de margarina numa fatia e nhac, nhac, nhac. Na segunda ou terceira dentada eu já tinha mordido aquela coisa escura e escorregadia, junto com aqueles quadradinhos coloridos (é, tinha fruta cristalizada também, é uma colomba pascal, não um chocotone).

Daí eu fiquei pensando o que esses dois ingredientes tinham feito pra mim, e por que eu nutria uma repulsa tão grande por eles. Eu coloco maçã verde no salpicão, poxa vida, não é como se eu não gostasse de coisa doce misturada com coisa salgada – se bem que o panetone não tem é gosto de nada, mas divago. Aquilo nem é tão ruim, eu garanto pra vocês que fígado de boi e coração de galinha é pior pra mim do que uma frutinha ressecada inofensiva e uns quadradinhos de fruta sem gosto. Eu como ameixa seca, qual é a diferença?

Beleza, perdoei a uva passa e comi um delicioso panetone da caixa amarela no Natal. Daí fomos no mercado, eu, minha mãe e o conjo, e achei a gôndola de produtos naturais, ou, como diz minha mãe, “a parte da comida de passarinho”, e lá eu parei pra olhar os pacotes de granola. Eu tinha voltado a comer granola uma semana antes, mas o pacote que eu tinha comprado acabou em dois dias porque eu comi quantidades surreais de granola com iogurte grego. Procura daqui, procura dali, achei uma legalzinha – e ela tinha a bendita uva passa. Tudo bem, eu já tinha perdoado a uva passa, então bora.

Na primeira porção de granola com iogurte que eu comi tinha um pedaço de doce de banana.

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: o único doce de fruta que eu como é goiabada. Eu detesto aquele bombom Caribe que vem em uma das caixas de bombons sortidos que vende por aí, não como doce de abóbora, ou de mamão, ou de qualquer coisa que vocês possam imaginar. Não vai, eu já tentei, juro pra vocês. Minha mãe faz um doce de abóbora lindo, com coco ralado e cravo da Índia, mas eu não consigo nem chegar perto. Daí me vem o bendito docinho de banana, parecendo querer se vingar de todas as vezes que eu deixei um único bombom na caixa, camuflado numa pilha de aveia, flocos de arroz, flocos de milho e uva passa, e ataca minhas papilas gustativas praticamente gritando “rá, te peguei! você vai ter que me engolir!”.

Mas eu resolvi perdoar o doce de banana também, afinal de contas, o que é um pedacinho desse doce açucarado e com gosto esquisito perto da festa de sabores que é a minha granola com iogurte natural?

Agora eu sou uma feliz consumidora de granola com uva passa e doce de banana mergulhados num copo de iogurte natural (já que parece que não existe mais iogurte grego sabor natural pelas redondezas, meh) enquanto minha mãe continua insistindo que isso é comida de passarinho. Mas eu acho que ela se espantou mais no dia em que eu subi na casa dela e perguntei se tinha fruta. Embasbacada, ela me indicou uma maçã que estava na geladeira e que eu cortei e comi casualmente enquanto comentava alguma coisa com ela, que certamente me observava se perguntando “o que foi que deu nessa criatura pra começar a comer fruta?”.

Uva passa, mãe. Uva passa e doce de banana.