Duas idiossincrasias da sintaxe alemã

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Eu adoro alemão. Eu já devo ter contado inúmeras vezes que escolhi o bacharelado em Alemão depois de uma aula de Introdução aos Estudos Literários na qual o professor Jorge (ah, o Jorge…) explicava o movimento Sturm und Drang e seus idealizadores, Goethe e Schiller. Naquele momento eu mandei o Baudelaire e o Flaubert pra puta que pariu – eu tinha entrado na faculdade pra fazer bacharelado em Francês – e decidi que ia estudar alemão.

No fim eu não me dei bem com a literatura alemã – exceto com o Werther do Goethe, eu adoro aquele livro e adoro a história por trás da segunda edição dele, um dia eu conto – mas me dei muito melhor com a sintaxe alemã. Sim, eu entendo um pouco melhor de sintaxe alemã do que de conversação em alemão;  não me peça pra falar alemão com alguém, mas se você me der um texto eu consigo fazer análise sintática dele todo.

Uma coisa interessante do alemão são os casos. Assim como no latim, os pronomes, substantivos e adjetivos são declinados, e se houvesse artigo no latim eles também seriam declinados. Os casos exercem uma função sintática quando são aplicados; isso quer dizer que eu bato o olho em den Hund na frase Ich habe den Hund gefüttert e sei que é um objeto direto, pois der Hund está declinado no caso acusativo. Na frase Hilf mir! eu sei que há um objeto indireto – no alemão; em português a tradução coloquial seria “me ajude”, que traz um pronome pessoal oblíquo usado com verbos transitivos diretos – por causa do mir, que é o pronome Ich declinado no dativo1.

Ou seja, a sintaxe alemã é tão organizada quanto eles. Vejamos um exemplo de uma frase que pode gerar ambiguidade no português mas que não gera problema nenhum no alemão:

Und als sie vorbei war, erzählte sie ihm, daß ihn sein Vater habe zu sich entboten und ihm verziehen.

Minha solução de tradução pra isso foi a seguinte:

“Quando terminou a festa, a princesa disse ao rapaz que ele havia sido perdoado pelo pai, que pedira para que ele voltasse pra casa.”

Isso não é uma tradução ao pé da letra, como sói acontecer na maioria das traduções. Trocar uma palavra por outra pode ser tudo, menos tradução, mas divago. Eu encontrei essa solução porque a primeira seria “a princesa disse ao rapaz que seu pai o havia perdoado e pedido pra que voltasse pra casa”, e ali naquele “seu” reside uma ambiguidade: esse pronome está se referindo à princesa ou ao rapaz? Já no alemão não acontece a ambiguidade. O pronome ihn  se refere ao rapaz. O uso do sein, ali, está ligado a ihn, e não a sie, que está na segunda frase e substitui Prinzessin.

Mas nem tudo são flores na língua alemã. Observem o seguinte período:

Da ritt sein Pferd mitten darüber hin und als er vor’s Thor kam, ward es aufgethan und die Prinzessin empfing ihn mit Freuden, und sagte, er wär’ ihr Erlöser und der Herr des Königreichs und ward die Hochzeit gehalten mit großer Glückseligkeit.

Cada und que eu marquei ali seria um ponto, ou um ponto e vírgula, no português. Eu contei três vírgulas ali, e elas servem pra separar orações principais de orações subordinadas. Esse é o nível de idiossincrasia que se consegue no alemão: três conjunções aditivas pra conectar um monte de frases e criar um período gigantesco. Vamos ver como ficou no português(primeira versão, sem revisão, ok? não me atirem aos lobos):

“Seu cavalo, porém, seguiu o caminho do meio, e quando chegaram ao portão, este estava aberto. A princesa o recebeu com alegria, dizendo que ele era o escolhido e senhor daquele reino. O casamento dos dois foi celebrado com muita felicidade.”

Pontos finais, minha gente! Pontos finais e vírgulas! Yaaaaaaaaaaaaaaay!

Conclusão: alemão é complicado, mas é uma delícia. Quando se pega o jeito da coisa, um mundo se abre na sua cabeça e até o português passa a ser mais compreensível. Mas não precisa usar conjunção toda hora e economizar nos pontos finais, né?


1 Nesse caso específico usamos o dativo também porque o verbo hilfen é o que chamamos de verbo dativo, ou seja, ele obrigatoriamente pede um complemento no caso dativo.